O quarto era bonito demais.Não do jeito que ela estava acostumada a desejar — não como um prato de sopa quente numa noite fria ou uma fogueira acesa por caridade. Era o tipo de beleza que existia para lembrar que ela não pertencia àquele lugar. Detalhes dourados nas molduras, cortinas pesadas como malhas de seda real, um abajur de vidro polido que lançava luzes coloridas sobre a madeira encerada do chão. Luxo não era conforto. Era uma sentença.Amahle pousou a mochila no chão com muito cuidado. Não que o que tivesse dentro pudesse quebrar, mas porque o gesto dizia mais do que ela estava pronta para admitir: ela não queria deixar rastros ali. Nunca quis, em lugar nenhum.A outra cama estava vazia, feita demais para ser de verdade. Lençois impecáveis, fronhas bordadas, almofadas que jamais precisaram suportar peso. A própria cama de Amahle parecia não ter sido usada desde que a colocaram ali. E talvez não tivesse. Por séculos, aquele lugar pertenceu a outros nomes. Nomes que abriam portas, que herdavam segredos, que carregavam títulos e poderes com a mesma naturalidade com que ela carregava cicatrizes.Agora, Halkeginia abria portões para "novas promessas", diziam. Mas não para ela. Não por ela.O silêncio era quase limpo demais. Um silêncio que só existe onde ninguém precisa gritar. Ela sabia reconhecer o cheiro do privilégio: não vinha de perfume, mas da ausência de medo. Era isso que havia ali. Uma ausência profunda de medo. De necessidade. De urgência.Amahle se deitou de lado, ainda vestida, ainda alerta. A colcha era macia, quase anestésica e o colchão era grosso o suficiente para engolir suas dúvidas, tão confortável quanto um sepulcro. Era perigoso.Ninguém ali sabia seu nome. E ela não faria questão que soubessem. De nomes se faziam histórias. E histórias eram uma arma nas mãos erradas.Enquanto o teto ornamentado a encarava como um espelho invertido, ela tentou se convencer de que isso era o começo de algo. E não apenas mais uma farsa, mais uma cidade grande demais, mais um lugar onde ela precisava se esconder para sobreviver. O único conforto era o daemon adormecido no canto, a salamandra imóvel, como se também soubesse que aquela não era sua terra.Não era uma primeira noite.Era uma última chance.E Amahle não ia desperdiçá-la com nomes.

ooc: zenin, +20. qualquer problema com esse selfpara, sinta-se livre para me informar na dm.